domingo, 6 de agosto de 2017

[Despedida IV]

“De buena, Buenos Aires só faltava ter meu quarto”, disse Victor depois de almoçarmos, cansado já da busca por um lar temporário. Felizmente contatos se fazem na jornada da vida e fomos conhecer o lugar em que nos estabeleceríamos pelos meses seguintes. O elevador do prédio: tão antigo que dava medo. Mas o apartamento era amplo de pé direito alto. Os móveis, piso e portas, de madeira. E as janelas, enormes, davam para um jardim. Essa foi nossa morada. Ali o Victor aprendeu a cozinhar, fez seu primeiro bolo de chocolate que ficou uma delícia e passamos madrugadas acordados entre xícaras de café e pipoca estudando para provas, seminários, escrevendo ensaios e monografias. O metrô a uma quadra, um supermercado na mesma rua e o melhor restaurante peruano bem na esquina. Fomos felizes, a pesar do frio.

A melhor resposta sempre vem à nossa mente quando já mudamos de assunto ou assim que desligamos o telefone.
Olhei para o branco do meu quarto e pensei que gosto das pessoas que percebem nos pequenos detalhes uma beleza escondida. Essas que fecham os olhos no meio da tarde, depois do almoço, só para escutar melhor o latido distante dos cachorros na vizinhança e o som do vento mexendo as folhas das árvores. Esse tipo de gente que olha o ângulo das paredes ou a sombra da luz entrando pela janela no fim do dia e vê ali um quadro. Que não consegue deixar de sorrir ao se deparar com um velhinho de suspensórios ou um bebê caminhando desajeitado com seus pais pela rua.
Que se encanta com o corpo que me dava vergonha e encontra charme numa pinta na pele e quer tirar uma foto.
Que faz dos acasos do cotidiano as grandes verdades do mundo e transforma um momento simples na razão da existência humana. 
(Há uma explicação em cada esquina para olhos atentos.)
E é por isso que quero estar ao seu lado o tempo todo. E querer estar tão perto assim de alguém é a única certeza que precisamos.

[Despedida III]

De buena, Buenos Aires tem muitas praças. Nos dias em que a solidão apertou, elas foram espécie de porto seguro em que eu me sentia confortável pra me acalmar e me distrair. Descobri uma pertinho da UBA que era bem mais silenciosa que a biblioteca subterrânea daquele prédio. Nela, um homem sentado na grama apoiado em uma árvore lia um livro, quando o cão que estava ao seu lado se libertou da coleira e foi até mim decidido como uma flecha, certeiro e ágil sem perder a graciosidade. Ele apoiou a cabeça no meu colo enquanto abanava o rabo e eu lhe acariciei o corpo gordo e peludo. O dono se levantou depressa me pedindo desculpas, sorrindo e dizendo que o cão devia estar procurando comida. Não tinha porque desculpar o dono. Eu queria era agradecer o cão que não devia saber que ao me pedir atenção (ou comida), ele é quem estava me dando o carinho que eu precisava. Essa cena é uma das memórias gostosas que tenho da cidade.

[Despedida II]


De buena, Buenos Aires tem as linhas de metrô mais antigas da América Latina. A Linha A, que tem uma estação a um quarteirão de onde eu moro, foi construída em 1913. Poucas foram as vezes em que não havia ninguém pedindo, vendendo, cantando e até interpretando um personagem nas viagens subterrâneas que fiz. Isso nunca me incomodou, mas também não me encantava. Até que numa sexta-feira cansativa, dois meninos subiram no vagão tocando no violão uma música que tocávamos na banda Los Chicharrones. Não pude deixar de cantarolar com eles a letra inteira de Zafar, da Vela Puerca, e quase desci na estação errada, só pra poder terminar a música. Essa cena é mais uma memória gostosa que tenho da cidade.
https://www.youtube.com/watch…

[Despedida]

De buena, Buenos Aires tem as ruas planas, amplas e democráticas. Pedestres são, em geral, velhinhos de boinas, cães de roupinha, mães e pais com bebês e crianças. Um dia, voltando da UBA pra casa, uma menina de cabelos pretos e bem lisos que não devia ainda nem bater na atura dos meus joelhos, sorria e apontava pra mim. A mãe lhe incentivou que me desse um tchau, mas ela me mandou um beijo com a mãozinha espalmada cheia de dedinhos gordos, os lábios fazendo um biquinho que a deixava bochechuda. Andei um quarteirão sem conseguir tirar o sorriso bobo da cara. Essa cena é uma memória gostosa que tenho da cidade.

Ode a 2016


Terrível ano ímpar!
Desgraçaste meus poetas,
Forjaste minha alegria.
E depois do que fizeste
Que manchaste e desmanchaste
Do desespero que me causaste
Me despertas na madrugada
Soprando-me um frio de medo

Deixaste-me cabreira!
De tão feliz que me encontro,
Não posso crer ser verdade
Que no finzinho de seus dias
Me dês tanta felicidade.
Agradeço o aprendizado
Mas agora, vai-te embora.
Serás pra sempre lembrado.
Maldito ano caga

Adherencia

Me sorprende la manera inopinada que sigues llegando a mi mente. Y más que el disparo al recuerdo de tu presencia sea algo tan simple como el olor al té de anís, el sabor del pescado al limón, esa canción que suena al otro lado de la calle –y que ni siquiera me gusta tanto. Cualquier pareja besándose contra un árbol. La textura del cimiento de que es hecho el banco del parque cerca a mi casa. Y siempre que se me cruza el camino alguien con tú mismo nombre, aunque la pronuncia del tuyo no tenga nada que ver con la de aquí. Aquí, donde me encuentro: perdida en los caminos de las elecciones absurdas que uno hace en esta lindísima y pavorosa existencia

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Um companheiro escolheu,
Queria formar um lar.
Mas o amor se perdeu,
Sentiu-se meio sem lugar...
Queria usar um véu,
Estava tão certa de amar...
Pois no desvario seu,
Não percebeu o azar...
O homem só dizia "meu",
E ela a compartilhar...
E como um anjo se deu
Fez tudo sem reclamar...
E foi então que percebeu,
O outro, sempre a embromar...
Pegou tudo que era seu
Disse-lhe "aqui não há lugar!"...
O homem até estremeceu,
E ela pôde se libertar...