Depois de alguns dias refugiados no próprio orgulho,
decidimos então almoçar juntos. Houve uma troca de mensagens curtas e sinceras, combinamos o
dia e o horário. Me olhando no espelho enquanto penteava o cabelo, eu tentava
decorar o que devia te dizer. Você apareceu no portão de casa de carro e eu
não sabia, depois da última conversa e dos dias longe, como fazer uma coisa tão
simples como aquela. Sentei, fechei a porta, te olhei nos olhos e você sorriu.
Um beijo rápido e sem graça.
A gente mal conversava e eu senti falta da sua mão na minha
coxa, como você sempre faz quando esta dirigindo. Às vezes você até troca de
marcha com a mão esquerda, só pra não tirar a direita de mim. E quando a gente
parava nos faróis você me dava um beijo no rosto. Não dessa vez.
Dessa vez, saímos do carro e andamos lado a lado sem dar as
mãos. Sem saber muito o que fazer com as minhas, as meti no bolso da calça.
Você acendeu um cigarro pra manter as suas ocupadas. Na fila do bandejão, onde sempre nos abraçamos, eu olhava pra
ponta do seu cadarço, com medo de te encarar. Mesmo assim, a gente tentava:
você com o canto dos olhos, eu com a cabeça baixa. Em um momento me distraí e você me puxou pra perto de você com a mão por baixo
do meu cabelo. Beijou minha testa. Eu suspirei. Alguns passos à frente eu já
sentia meus dedos nas pontas dos seus, seu braço na minha cintura, e assim que passamos a
catraca, você me abraçou de verdade. Eu te beijei.
Que tarde longa tínhamos pela frente.
Senti como se fosse a primeira vez que a gente se beijasse,
mesmo tendo quase certeza de que seria uma das últimas. Depois do almoço, um café no pé da árvore. Acho que estamos indo mal, eu disse,
e você não respondeu porque, afinal de contas, o que se pode responder depois
disso? Como sempre, seu silêncio me perturbava, sua tranquilidade me agitava.
Eu não sei o que se passava pela sua cabeça, mas na minha uma árvore caía, um
carro batia num poste e alguém quebrava um vidro com um taco de madeira numa
igreja ampla e vazia. Mas a sua respiração estava muito perto da minha e eu sentia
meus pelos arrepiando quando você me olhava. Desde o primeiro dia quem que te
beijei, eu nunca quis parar de te beijar. E hoje eu precisava?
Decidi continuar beijando nas horas seguintes. Depois que nos despedimos sangrei durante o resto do dia.
Pensei que alguns segundos de prazer talvez não valessem uma tarde dolorida. No começo da noite, tive certeza.
Não é fácil. Todo mundo pode acabar
machucando alguém de vez em quando. Mas como é difícil quando a culpa, na realidade, não é de ninguém.
Dessa vez, saímos do carro e andamos lado a lado sem dar as mãos. Sem saber muito o que fazer com as minhas, as meti no bolso da calça. Você acendeu um cigarro pra manter as suas ocupadas. Na fila do bandejão, onde sempre nos abraçamos, eu olhava pra ponta do seu cadarço, com medo de te encarar. Mesmo assim, a gente tentava: você com o canto dos olhos, eu com a cabeça baixa. Em um momento me distraí e você me puxou pra perto de você com a mão por baixo do meu cabelo. Beijou minha testa. Eu suspirei. Alguns passos à frente eu já sentia meus dedos nas pontas dos seus, seu braço na minha cintura, e assim que passamos a catraca, você me abraçou de verdade. Eu te beijei.
Que tarde longa tínhamos pela frente.
Não é fácil. Todo mundo pode acabar machucando alguém de vez em quando. Mas como é difícil quando a culpa, na realidade, não é de ninguém.
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